Por que é tão difícil para um empreendedor arrumar um emprego?

Por que é tão difícil para um empreendedor arrumar um emprego_

Empreendedor, termo relativamente novo na língua portuguesa que vem sendo amplamente utilizado para denominar toda e qualquer pessoa que resolva encarar o desafio de ter ou fazer parte de um negócio próprio ou não, seja produto ou serviço.

Alguns empreendedores dividem o seu tempo entre a sua iniciativa empreendedora e um trabalho formal e outras se dedicam exclusivamente a elas. A maioria esmagadora dos empreendedores no Brasil começa a sua empreitada de forma pequena, se encaixando nas três categorias que a Lei Geral das Microempresas e Empresas de Pequeno Porte defende:

ME -Microempresa: Sociedade empresária, sociedade simples, empresa individual de responsabilidade limitada e o empresário, devidamente registrados nos órgãos competentes, que aufira em cada ano calendário. Receita bruta anual, igual ou inferior a R$ 360.000,00.

EPP – Empresa de pequeno porte: A empresa de pequeno porte não perderá o seu o seu enquadramento se obter adicionais de receitas de exportação, até o limite de R$ 4.800,000,00. Receita bruta anual, superior a R$ 360.000,00 e igual ou inferior a R$ 4.800.000,00.

MEI – Microempreendedor Individual: É a pessoa que trabalha por conta própria e se legaliza como pequeno empresário optante pelo Simples Nacional. O microempreendedor pode possuir um único empregado e não pode ser sócio ou titular de outra empresa. Receita bruta anual, igual ou inferior a R$ 81.000,00.

Segundo informações do SEBRAE, o Brasil tinha em maio de 2018, 11,8 milhões de empresas cadastradas oficialmente no regime Simples. Sendo 6,9 milhões de MEI e 4,9 milhões de ME e EPP. O SEBRAE ainda aponta que, do total de empresas legalmente cadastradas no Brasil, 99% delas são consideradas micro e pequenas empresas, sendo que as microempresas correspondem por 52% dos empregados com carteira assinada no setor privado.

Os números não são 100% precisos – até porque esse tipo de dado no Brasil não é disponibilizado de maneira fácil ou mesmo em tempo próximo a realidade. A pesquisa mais recente sobre esse assunto é de 2017 e foi disponibilizada no dia 26/06/2019 pelo IBGE – mas é possível ter uma ideia do tamanho do cenário que a maioria dos empreendedores deseja estar.

O problema está quando o empreendedor faz parte da triste estatística das empresas que foram fechadas e resolve voltar ao mercado de trabalho formal como colaborador de uma empresa ou simplesmente deseja votar ao mercado formal de trabalho depois de ter tido uma experiência empreendedora.

DESAFIOS PARA VOLTAR AO MERCADO DE TRABALHO FORMAL

Grande parte dos empreendedores que decidem voltar ao mercado formal de trabalho sentem que a sua experiência empreendedora não é bem vista ou aceita como uma experiência profissional “válida” por parte de entrevistadores, selecionadores e empregadores. Muitos tem a sensação de que os processos seletivos os excluem ou não os levam à sério, questionando a sua real intenção em voltar ao mercado de trabalho formal. Existem diversos motivos que levam um entrevistador a torcer o nariz quando está diante de um candidato que foi ou é um empreendedor. Pelo que pude apurar ao longo dos anos, conversando com candidatos e selecionadores, os três motivos principais que levam à desconfiança sobre um empreendedor que busca um emprego são:

Fracasso: O empreendedor é visto como alguém que tentou o próprio negócio e fracassou. E como única alternativa para a sua sobrevivência, resolveu voltar ao mercado de trabalho formal. Essa visão faz com que o empreendedor seja encarado com alguém incompetente, que não foi capaz de realizar os seus objetivos e, portanto, não deve ser um profissional competente para a empresa. Outro desdobramento dessa opinião é a de que o empreendedor ficará pouco tempo na empresa, uma vez que se cria a premissa de que ele está na empresa apenas para se “reerguer” e buscar algo melhor.

Inadaptabilidade Corporativa: O empreendedor é visto como alguém que não se adaptará a rotina da empresa, sua cultura e seus processos. Não importa se o empreendedor já tenha tido experiências corporativas anteriores, a sua adaptação a uma nova realidade profissional é questionada e colocada em xeque, e isso quase sempre é negativo quando pensamos em um processo seletivo.

Ultrapassado: Geralmente, essa visão é atribuída a empreendedores que estão conduzindo os seus negócios a muito tempo. Acredita-se que ele esteja ultrapassado em termos de conhecimentos técnicos e habilidades.

LIDANDO COM A DESCONFIANÇA

O candidato que é, ou um dia foi um empreendedor, precisa estar preparado para voltar a dinâmica do mercado de emprego para se recolocar. Certamente ele precisar estar pronto para ser questionado sobre os três pontos acima direta ou indiretamente. Mas não só.

Ele precisa

Aprendizados: Não importa qual foi o motivo da não continuação no caminho do empreendedorismo, o candidato precisa mostrar o que ele aprendeu durante esse tempo. Alguns empreendedores não atingiram os seus objetivos. Faliram, fecharam as portas ou desistiram. Outros, apesar do sucesso, entenderam que a dinâmica não era para eles e resolveram voltar para o mercado como empregados. O importante é saber (e saber demonstrar) quais foram os aprendizados e qual é a bagagem de experiências acumulada durante esse tempo.

Habilidades transferíveis: Uma habilidade aprendida em uma situação que pode aplicar-se a outra. Se você é capaz de resolver um problema de engenharia, pode muito bem aplicar a mesma lógica a um problema financeiro; se pode criar um esquema de cores criativo para decorar uma casa, pode ter uma boa ideia para o design da capa de um folheto e assim por diante.

Razão do retorno: Talvez esse seja o item mais importante dessa lista. Aquilo que o empreendedor deva ter na ponta da língua: Por que ele deseja voltar ao mercado de trabalho formal?  

Não importa o motivo da sua desistência na tortuosa estrada do empreendedorismo. Você precisa saber explicar o que lhe trás de volta ao mercado formal de trabalho. No Brasil é crença comum encarar um empreendedor como alguém que não deseja mais trabalhar para alguém, ter um “chefe”, ou mesmo seguir ordens de outras pessoas. Essa talvez seja a principal crença a ser quebrada quando um empreendedor resolver buscar um novo emprego.

Na minha experiência, os principais motivos que levam um empreendedor a buscar um novo emprego são:

  • Falta de desafio: Atingindo ou não os seus objetivos, o empreendedor não se sente desafiado tanto quanto imaginava e isso o incomoda. Geralmente, o empreendedor acaba comparando o nível de desafio que tem/tinha com o nível que tinha quando ele tinha um emprego tradicional e entende que os desafios de uma vida corporativa, por exemplo, eram mais excitantes dos que ele tem agora como empreendedor.
  • Solidão: Muitas vezes o empreendedorismo é um caminho solitário. Atingindo ou não o objetivo que se espera, o empreendedor se vê sozinho, “sem ninguém para trocar” como eles sempre me dizem durante as entrevistas. Muitas vezes essa solidão trás ao empreendedor a sensação de pouco desenvolvimento e até estagnação, coisa que ele não tinha quando era colaborador de uma empresa e tinha trocas diárias com colegas, pares, gestores e etc.
  • Desafio conquistado: Muitos empreendedores não desejam realmente ter o seu próprio negócio e abandonar a carreira que construíram no mercado formal. Muitos apenas precisam de um certo tempo para realizar o seu projeto e depois que ele estiver pronto voltar ao mercado de trabalho. Isso pode significar que o projeto foi realizado e não será continuado, ou mesmo que poderá ser conduzido em paralelo a outras atividades, como em conjunto com um trabalho formal em regime CLT, por exemplo.
  • Não era o que eu pensava: A realidade mostra que o empreendedorismo não é para qualquer um. Muitas vezes as coisas não sairão como o esperado e poderão ficar muito, muito difíceis. Tão importante quando ter a coragem de ir atrás de um sonho e ter a consciência dos seus limites. Muitos empreendedores se decepcionam com a vida empreendedora, com os resultados alcançados e com o esforço que é necessário para conseguir chegar onde se deseja. Chegando ou não nesse ideal, alguns empreendedores simplesmente entendem que o empreendedorismo não é para eles. Nem sempre essa é uma opinião taxativa. Muitas vezes o empreendedor apenas entende que o empreendedorismo não é para ele naquele momento de vida, mas que poderá ser retomado em um momento futuro.

TRANSIÇÃO DE CARREIRA – VOLUNTÁRIA E INVOLUNTÁRIA

Muitos empreendedores ao regressar ao mercado de trabalho, buscando um novo emprego, simplesmente não são mais os mesmos profissionais que eram quando sairam do mercado e foram empreender. Alguns se desenvolveram tanto em outras áreas de conhecimento e atuação que muitas vezes, sem querer, acabaram fazendo uma transição de carreira involuntária e não planejada. Cito como exemplo alguns “influencers” que temos aos montes aqui no Linkedin. Muitos deles se tornaram tão bons na produção e divulgação de conteúdo que se tornaram experts no assunto e a muito superaram os seus conhecimentos e habilidades anteriores.

Eles se tornaram excelentes comunicadores. Mas há um problema nisso.

Se hoje, o valor que eles geram no mercado é muito maior como comunicadores e/ou produtores de conteúdo, por que eles deveriam voltar a buscar emprego nas suas antigas profissões? Querendo ou não, o posicionamento profissional dessas pessoas é outro e elas devem focar as suas energias em assumir esse novo posicionamento e buscar um novo emprego dentro dessa nova esfera de atuação e não na antiga.

Existem ainda os empreendedores que não mudaram tanto a ponto de fazer uma transição de carreira propriamente dita. Geralmente, esses empreendedores somaram coisas novas ao seu antigo repertório de forma que eles são uma evolução do que eram antes da experiência empreendedorística. É comum esse tipo de empreendedor classificar a sua experiência como “muito mais potente do que um MBA” ou que “evoluiu 10 anos em 2 anos” e coisas do tipo. Para esse tipo de situação, o que eu recomendo é voltar a buscar oportunidades profissionais nas suas áreas de atuação originais.

Não conheci um único empreendedor que não aprendeu nada durante a sua jornada. Todos aprenderam algo, e de uma forma ou de outra, se tornaram profissionais melhores quando comparados consigo mesmo. Caindo no chavão piegas e barato da autoajuda e coachs caça-níquel, se tornaram uma versão melhor de si mesmos.

SENSO DE DONO e PALAVRAS FINAIS

Algo que é característico em um empreendedor que deseja um emprego, é que em maior ou menor grau, todos acabam desenvolvendo o chamado Senso de Dono. O tão procurado “ownership”.

O desenvolvimento desse comportamento é muito buscado pelas empresas, e geralmente se evidencia com dois ou mais atitudes descritas à baixo:

  • Assumir as responsabilidades e não culpar os outros.
  • Saber priorizar e executar.
  • Disciplina ao seguir o que é planejado ao mesmo tempo que tem flexibilidade e autonomia para adaptações.
  • Boa comunicação para entender e explicar o que fazer, como fazer e por que fazer.
  • Curiosidade: se não souber o que fazer ou como fazer, descobrir.
  • Fazer muito com pouco ou nenhum recurso.

Nada mais obvio do que o desenvolvimento desse comportamento por parte de um empreendedor. Afinal, durante um determinado período de tempo, ele realmente foi responsável inteiramente por algo. E não era algo qualquer, era algo seu.

Estou longe de dizer que o senso de dono é algo exclusivo dos empreendedores ou que eles tenham qualquer vantagem sobre quem nunca teve uma experiência empreendedora.

Não é isso. O ponto é que para um empreendedor o senso de dono não tende a ser algo novo. Consciente ou inconsciente, ele sabe o que significa e qual é o seu valor no dia a dia profissional. Com isso, a empresa que decide considerar um candidato que foi ou é um empreendedor tem uma probabilidade maior de investir menos recursos no desenvolvimento desse comportamento.

As empresas devem avaliar as experiências de um empreendedor da mesma forma que avaliam as experiências profissionais dos demais candidatos, sem vieses inconscientes ou preconceitos. É importante entender que cada um tem a sua história e o seu ideal de sucesso. Novamente, sem ser piegas ou discurso de coach de carreira online, o que é sucesso para um não é para outro. É necessário enxergar e compreender o que está além das nossas impressões e conhecer a pessoa por trás do currículo.

É importante tratar o candidato como aquilo que ele é. Um ser humano como eu e você.

Eduardo Saigh é formado e pós-graduado em marketing pela ESPM. Atuou com sucesso na área de marketing e comunicação durante 8 anos, quando decidiu mudar de carreira e empreender na área de desenvolvimento humano. Após três anos na nova área, aceitou o desafio de fazer a restruturação da área de RH na Hays, uma das maiores consultorias de recrutamento e seleção especializadas do mundo. Atualmente é o head da Elliott Scott, multinacional especializada no recrutamento e seleção de profissionais de RH e sócio fundador da Peopleminin.

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